Eleições intercalares <br> para sonhos adiados
O Partido Republicano emerge como o claro vencedor das eleições intercalares que se celebraram dia 4 de Novembro nos EUA para, entre referendos locais, legislativas estaduais e sufrágios autárquicos, escolher a totalidade dos membros da Câmara dos Representantes, 36 senadores e os governadores de 38 estados. Os republicanos passam a controlar ambas as câmaras do Congresso: detêm agora 52 dos 100 assentos do Senado (+7) e 246 dos 435 membros da câmara baixa (+14), uma maioria absoluta sem precedente desde os anos vinte. Também a nível estadual, os republicanos arrancam aos democratas a maior vitória desde a grande depressão, mesmo em bastiões democratas como Maryland, Illinois e Massachusetts.
Fechando um ciclo de desordem e cegueira táctica, o Partido Republicano celebra com este acto eleitoral o princípio do reagrupamento em torno do seu «centro» ideológico, esvaziando o Tea Party e adoptando uma imagem mais moderna e moderada através da inclusão cosmética de negros, latinos e mulheres. Contudo, não é a táctica nem o discurso dos republicanos que explicam o seu estrondoso êxito, mas sim a crescente desilusão dos trabalhadores estado-unidenses com o Partido Democrata aliada à ausência de alternativas políticas.
Democracia para quem?
Ao longo do último século, o Partido Democrata tem sido capaz de capitalizar em votos os avanços progressistas conquistados pela classe operária. Este oportunismo desavergonhado permitiu-lhe continuar culturalmente associado às conquistas do movimento sindical nos anos trinta e ao movimento dos direitos civis dos anos sessenta, muito embora o seu papel histórico, principalmente a partir dos anos setenta, tenha sido de aprofundamento da exploração dos trabalhadores. Mas nestas eleições intercalares consolida-se uma tendência abstencionista do tradicional eleitorado democrata, que já se vinha aprofundando desde a débil reeleição de Obama em 2012 e que aponta para uma importante conclusão: o Partido Democrata está a esgotar a lotação do disfarce anti-racista e de esquerda que durante tantos anos camuflou a sua verdadeira política de classe. Com efeito, a derrota democrata e a elevadíssima taxa de abstenção (64 por cento), escondem indeléveis matizes sociais, ou não fossem os negros, os mais pobres, os imigrantes e os jovens que escolheram ficar em casa.
Os trabalhadores não estão só desencantados com a administração de Obama, cuja taxa de aprovação ronda os 40 por cento e que, no essencial, decidiu continuar a política de direita de Bush: estão desiludidos com a própria democracia burguesa. Estas eleições foram as primeiras na História dos EUA em que, por virtude das chamadas superpacs e de leis como a Citizens United, foram virtualmente eliminados todos os limites às doações de empresas a partidos políticos. E apesar do máximo histórico de quatro mil milhões de dólares gastos em campanha, só 36 por cento dos eleitores registados votaram, o que também não é difícil de compreender. Que democracia é esta afinal, onde mais de 50 por cento do Congresso é composto por milionários, em contraponto o um por cento da população e onde mais de 70 por cento dos eleitores admitem estar descontentes com a prestação dos seus congressistas, cuja taxa de reeleição ronda, no entanto, os 90 por cento? Talvez a pergunta útil seja a de Lénine: «Democracia para quem?».
Como uma uva ao sol
Porém, onde os trabalhadores tiveram a oportunidade de defender os seus interesses, fizeram-no, como provam os quatro estados de maioria republicana onde o aumento do salário mínimo foi referendado com sucesso. Também um pouco por todo o país, terceiros candidatos de esquerda atreveram-se a enfrentar as mais esdrúxulas limitações anti-democráticas e as campanhas milionárias do grande capital: no Estado de Nova Iorque, o candidato a governador Howie Hawkins, do Partido Verde, alcançou cinco pontos percentuais e 175 000 votos; na eleição para a Câmara Estadual do Estado de Washington, Jess Spear, da Alternativa Socialista, bateu a barreira dos 17 por cento; em Washington DC, Eugene Puryear, do Partido para o Socialismo e a Libertação, conseguiu mais de cinco por cento dos votos.
A classe dominante estado-unidense continua dividida por visões diferentes sobre como estabilizar a crise do capitalismo e estas eleições, configurando uma discussão entre diferentes facções da mesma burguesia, excluem os representantes dos trabalhadores. O que acontecerá às suas exigências indeferidas?
Num dos retratos poéticos mais bem conseguidos da luta do povo dos EUA, Langston Hughes fazia a mesma pergunta. «O que acontece quando um sonho é adiado? Será que seca, como uma uva ao sol? Ou apodrece como uma ferida que vaza? Ou fede como carne podre? Ou encrosta e açucara como doce melado? Talvez apenas se afunde como um pacote pesado. Ou será que explode?»
Fechando um ciclo de desordem e cegueira táctica, o Partido Republicano celebra com este acto eleitoral o princípio do reagrupamento em torno do seu «centro» ideológico, esvaziando o Tea Party e adoptando uma imagem mais moderna e moderada através da inclusão cosmética de negros, latinos e mulheres. Contudo, não é a táctica nem o discurso dos republicanos que explicam o seu estrondoso êxito, mas sim a crescente desilusão dos trabalhadores estado-unidenses com o Partido Democrata aliada à ausência de alternativas políticas.
Democracia para quem?
Ao longo do último século, o Partido Democrata tem sido capaz de capitalizar em votos os avanços progressistas conquistados pela classe operária. Este oportunismo desavergonhado permitiu-lhe continuar culturalmente associado às conquistas do movimento sindical nos anos trinta e ao movimento dos direitos civis dos anos sessenta, muito embora o seu papel histórico, principalmente a partir dos anos setenta, tenha sido de aprofundamento da exploração dos trabalhadores. Mas nestas eleições intercalares consolida-se uma tendência abstencionista do tradicional eleitorado democrata, que já se vinha aprofundando desde a débil reeleição de Obama em 2012 e que aponta para uma importante conclusão: o Partido Democrata está a esgotar a lotação do disfarce anti-racista e de esquerda que durante tantos anos camuflou a sua verdadeira política de classe. Com efeito, a derrota democrata e a elevadíssima taxa de abstenção (64 por cento), escondem indeléveis matizes sociais, ou não fossem os negros, os mais pobres, os imigrantes e os jovens que escolheram ficar em casa.
Os trabalhadores não estão só desencantados com a administração de Obama, cuja taxa de aprovação ronda os 40 por cento e que, no essencial, decidiu continuar a política de direita de Bush: estão desiludidos com a própria democracia burguesa. Estas eleições foram as primeiras na História dos EUA em que, por virtude das chamadas superpacs e de leis como a Citizens United, foram virtualmente eliminados todos os limites às doações de empresas a partidos políticos. E apesar do máximo histórico de quatro mil milhões de dólares gastos em campanha, só 36 por cento dos eleitores registados votaram, o que também não é difícil de compreender. Que democracia é esta afinal, onde mais de 50 por cento do Congresso é composto por milionários, em contraponto o um por cento da população e onde mais de 70 por cento dos eleitores admitem estar descontentes com a prestação dos seus congressistas, cuja taxa de reeleição ronda, no entanto, os 90 por cento? Talvez a pergunta útil seja a de Lénine: «Democracia para quem?».
Como uma uva ao sol
Porém, onde os trabalhadores tiveram a oportunidade de defender os seus interesses, fizeram-no, como provam os quatro estados de maioria republicana onde o aumento do salário mínimo foi referendado com sucesso. Também um pouco por todo o país, terceiros candidatos de esquerda atreveram-se a enfrentar as mais esdrúxulas limitações anti-democráticas e as campanhas milionárias do grande capital: no Estado de Nova Iorque, o candidato a governador Howie Hawkins, do Partido Verde, alcançou cinco pontos percentuais e 175 000 votos; na eleição para a Câmara Estadual do Estado de Washington, Jess Spear, da Alternativa Socialista, bateu a barreira dos 17 por cento; em Washington DC, Eugene Puryear, do Partido para o Socialismo e a Libertação, conseguiu mais de cinco por cento dos votos.
A classe dominante estado-unidense continua dividida por visões diferentes sobre como estabilizar a crise do capitalismo e estas eleições, configurando uma discussão entre diferentes facções da mesma burguesia, excluem os representantes dos trabalhadores. O que acontecerá às suas exigências indeferidas?
Num dos retratos poéticos mais bem conseguidos da luta do povo dos EUA, Langston Hughes fazia a mesma pergunta. «O que acontece quando um sonho é adiado? Será que seca, como uma uva ao sol? Ou apodrece como uma ferida que vaza? Ou fede como carne podre? Ou encrosta e açucara como doce melado? Talvez apenas se afunde como um pacote pesado. Ou será que explode?»